E quero alguém. Alguém que me dê carinho, que me abrace a qualquer momento, que me dê beijinhos fofos na testa e na mão. Uma pessoa que se importe de verdade, que não apenas fique me olhando com cara de preocupado e sim que me faça cócegas só pra me ver sorrir e me fazer esquecer o que estava me deixando triste. Quero levantar de madrugada com o toque do celular e ler uma mensagem de ‘com eu queria que você estivesse aqui’ ou ‘acabei se sonhar com você’. Eu quero alguém para acordar ao meu lado e passar horas conversando até que um dos dois resolva dormir mais um pouquinho. Pode parecer que estou pedindo muito, mas já encontrei alguém assim, só que nunca vou chamá-lo de meu…
Meu.
Qualidades
Aquele que finge esquece-se do mais importante, de que o essencial em possuir uma qualidade consiste em desfrutar do benefício de tê-la sempre à disposição como algo que conta em seu favor. Qualidades só constituem fardos àqueles que precisam fingir possuí-las. Quando sabemos possuir uma qualidade, nunca nos ocorre demonstrá-la gratuitamente, e estamos perfeitamente tranquilos quanto a isso. Um juízo contrário não a tirará de nossas mãos nem interferirá em nossas chances de sucesso, não mudará o que pensamos a nosso respeito. Visto que independe de opiniões alheias, geralmente não fazemos sequer questão de saber o que se pensa sobre ela. Então, como não faz sentido defendermos nossas qualidades, é exatamente isso que incrimina os que tentam esconder suas fraquezas com exageros na direção oposta. As qualidades que um indivíduo demonstra desnecessariamente testemunham contra ele próprio, de modo que encontraríamos em seu interior justamente o contrário daquilo que aparenta ser: seu constante esforço em provar seu valor indica que não possui nenhum. Por isso toda ostentação pode ser vista como uma confissão de incompetência. Os que se esforçam em parecer sábios, são tolos; os que lutam para ser humildes, são orgulhosos; os que vivem para demonstrar bravura, são covardes, e assim por diante. Basta acrescentarmos um sinal negativo a todos os valores que ostentam para chegarmos àquilo que realmente são.
Inquietos.
Minha inquietação com a inquietação dele à mesa e as inquietas especulações a que essa dupla de inquietações deu margem dentro de minha mente inquieta.
Não.
- Não. Agradeço, mas não posso.
- Por que?
De que modo explicar-lhe? Há coisas que se quebram e conserta-se. Há coisas que, uma vez quebradas, não têm mais conserto. E há as que não têm conserto porque são perfeitas demais e é este seu defeito. A vontade de revê-lo gritava em minhas vísceras e, no entanto, a quem pertencia aquele grito? Não a mim. Era uma excrescência, um corpo estranho entranhado em meu corpo, uma engrenagem da qual eu e meus sentimentos não passávamos de peças. Não, não tinha como explicar-lhe.
- Porque não.
[In] Felicidade
A felicidade de nossas vidas é sustentada por uma ótica constantemente falsa. Sonhamos com o futuro e dizemos: ah!, como serei feliz…; olhamos para trás e suspiramos: ah!, como fui feliz…; agora, lamentamos: ah!, como sou desgraçado… No presente, somos seres infelizes rodeados de felicidades distantes, mas perto das quais o sofrimento atual parece desprezível. O presente é uma ilha de infelicidade rodeada por um mar de alegria. O fato, entretanto, é que nunca mergulharemos nesse mar, pois ele é uma ilusão que inventamos para tentar justificar nossa miséria. Mesmo assim, nunca nos deixaremos desiludir. Somos infelizes absolutamente convictos de que a felicidade existe — esteja ela onde estiver, está à nossa espera, pois sua mão nos foi prometida durante a infância. Não importa que nesse particular nossas vidas resumam-se uma série de decepções: nunca admitimos que tudo é areia, nunca admitimos que fomos enganados. Podemos estar certos de que, se a felicidade fosse uma pessoa, ela estaria presa, mas isso não nos prova nada. A felicidade nos sorri como uma miragem, e nós acreditamos que, dessa vez pode, ser real.



