Arquivo para dezembro, 2011

Inquietos.

Minha inquietação com a inquietação dele à mesa e as inquietas especulações a que essa dupla de inquietações deu margem dentro de minha mente inquieta.

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Não.

- Não. Agradeço, mas não posso.
- Por que?
De que modo explicar-lhe? Há coisas que se quebram e conserta-se. Há coisas que, uma vez quebradas, não têm mais conserto. E há as que não têm conserto porque são perfeitas demais e é este seu defeito. A vontade de revê-lo gritava em minhas vísceras e, no entanto, a quem pertencia aquele grito? Não a mim. Era uma excrescência, um corpo estranho entranhado em meu corpo, uma engrenagem da qual eu e meus sentimentos não passávamos de peças. Não, não tinha como explicar-lhe.
- Porque não.

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[In] Felicidade

A felicidade de nossas vidas é sustentada por uma ótica constantemente falsa. Sonhamos com o futuro e dizemos: ah!, como serei feliz…; olhamos para trás e suspiramos: ah!, como fui feliz…; agora, lamentamos: ah!, como sou desgraçado… No presente, somos seres infelizes rodeados de felicidades distantes, mas perto das quais o sofrimento atual parece desprezível. O presente é uma ilha de infelicidade rodeada por um mar de alegria. O fato, entretanto, é que nunca mergulharemos nesse mar, pois ele é uma ilusão que inventamos para tentar justificar nossa miséria. Mesmo assim, nunca nos deixaremos desiludir. Somos infelizes absolutamente convictos de que a felicidade existe — esteja ela onde estiver, está à nossa espera, pois sua mão nos foi prometida durante a infância. Não importa que nesse particular nossas vidas resumam-se uma série de decepções: nunca admitimos que tudo é areia, nunca admitimos que fomos enganados. Podemos estar certos de que, se a felicidade fosse uma pessoa, ela estaria presa, mas isso não nos prova nada. A felicidade nos sorri como uma miragem, e nós acreditamos que, dessa vez pode, ser real.

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Ele vem.

Hoje não é muito diferente de todos os outros dias. Saio da cama ao romper da aurora, visto umas calças e um suéter, escovo o cabelo, faço torradas e chá e fico sentada contemplando o lago, me perguntando se ele vem hoje. Não é muito diferente das muitas vezes em que ele se foi, e eu esperei, só que agora tenho instruções: sei que ele acabará vindo. Às vezes, me pergunto se essa disposição, essa esperança, impede que o milagre aconteça. Mas não tenho escolha.

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