A gente se acostuma.

23-102

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e não ver vista que não sejam as janelas ao redor. E porque não tem vista logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma e não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, se esquece do sol, se esquece do ar, esquece da amplidão.

A gente se acostuma a acordar sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder tempo. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E não aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: “hoje não posso ir”. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisa tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que se deseja e necessita. E a lutar para ganhar com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar nas ruas e ver cartazes. A abrir as revistas e ler artigos. A ligar a televisão e assistir comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição, às salas fechadas de ar condicionado e ao cheiro de cigarros. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam à luz natural. Às bactérias de água potável. À contaminação da água do mar. À morte lenta dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinhos, a não ter galo de madrugada, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta por perto.

A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta lá.
Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua o resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem muito sono atrasado.

A gente se acostuma a não falar na aspereza para preservar a pele. Se acostuma para evitar sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.

A gente se acostuma para poupar a vida.

Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma.

9 Respostas so far »

  1. 1

    danieoo said,

    Depois de ler a coisa toda fiquei uns segundos em silêncio…
    Dá o que pensar, um dos melhores textos que já li, sem dúvida.

    Me acostumei com tudo isso. A única coisa que difere da minha realidade são as plantas. Como viste no vídeo aqui é cheio delas. ^^

  2. 2

    Nyele Hendrick said,

    Eu também achei muito bom, o texto.

    Ah, é mesmo. Sua casa é cercada de mato \o
    Mas é bastante simpática.A tua casa.

  3. 3

    danieoo said,

    Queres dizer o interior?

  4. 4

    Nyele Hendrick said,

    Eu sinceramente não prestei muita atenção no interior, minha atenção ficou no modo super teatral em que vocês falavam \o

  5. 5

    danieoo said,

    Bom, de qualquer jeito aquele era o porão, o andar de cima é bem diferente. ^^

    Eles agradeceriam se estivessem lendo. Qualquer dia eu upo mais alguns vídeos de outros trabalhos que eu tenho aqui.

  6. 6

    Nyele Hendrick said,

    AQUILO era o porão? Cara, dá quase a minha casa!

    Oh, vê se upa sim! Tô loca pra ver \o/

  7. 7

    danieoo said,

    É que a coisa é meio constrangedora…
    Vou até fazer um outro canal no Youtube pros caras não verem que eu postei. XD

  8. 8

    Nyele Hendrick said,

    Sério? O que vocês fazem neste? Dançam? |o/

    Me manda PM quando você upar \o

  9. 9

    danieoo said,

    Revi o bagulho e sério. NÃO DÁ PRA UPAR.


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