Minha querida Isabel,


A última vez que te vi tinhas tu, minha doce filha, apenas três anos. Eras bela como uma boneca e tinhas o génio mais meigo que já vi numa criança. Recordo esse dia, pois o sol da Primavera entrava pela janela dos teus aposentos e o teu vestidinho de cetim vermelho parecia incendiado de tanta luz, quando te aproximaste de mim, de braços estendidos. Talvez não recordes esses primeiros anos, porém Isabel, não minto quando te digo que embora o tempo que passámos juntas fosse infelizmente escasso, conhecias-me e amavas-me. Amavas-me de um modo tão possessivo, que esse sentimento me parecia estranho, vindo de uma criança tão pequena. O meu colo servia-te de trono e era eu o teu único súbdito. Quando aí, te encontravas exigias toda a minha atenção e não permitias qualquer interferência. Eras tu que me ordenavas que canções cantar, que histórias contar, que parte do teu pescoço, orelhas e pés beijar ou acariciar. Adorava esses raros momentos, essas horas encantadas e espero que te recordes deles, pois vou morrer sabendo que te deixo órfã de mãe, num mundo cruel e perigoso.

Tudo indica que nunca será tua a coroa de Inglaterra. Maria pode reinar e a descendência de Jane Seymour terá por certo precedência mas, mesmo assim, já que vou morrer, tenho de acreditar que um dia serás Rainha. Não foi a profecia da Freira de Kent que mo disse, embora acredite que ela tenha visto o futuro, antes de se transformar num peão de homens poderosos. Vejo como o destino tem um estranho modo de fugir, súbita e violentamente, ao nosso controle. Vejo-te um dia a governar Inglaterra, pois para além do meu sangue determinado, possuis também a linhagem real de teu pai.

Amanhã morrerei, não por avidez de luxúria, mas porque quis comandar o meu destino. Não é um acto apropriado para uma mulher, bem o sei, mas muitas vezes pensei que o meu espírito era mais parecido com o de um homem. Neste mundo, uma mulher nasce com um dono que é seu pai. Este governa-lhe a vida até a entregar nas mãos de um marido, que lha governa até à morte. Muitos pregadores afirmam que a mulher não tem alma. Porém uma qualquer alteração na minha natureza, sempre me impediu de obedecer aos homens. Era apenas uma menina quando me defrontei com estes dignos opositores – meu pai, o cardeal Wolsey, Henrique. Mantive-me firme como um cavaleiro num campo de batalha. Reuni forças, avancei, recuei, participei em muitas escaramuças, servi-me da diplomacia, venci importantes batalhas. E perdi a guerra.

Assim, e excepto pela dor de te deixar, minha filha, de nada me arrependo. Vivi verdadeiramente uma vida que está vedada à maioria das mulheres. Conheci o verdadeiro amor, lutei por uma coroa e consegui-a, tratei, com reis, rainhas e cardeais. Tive uma filha. Há quem diga que sou bruxa, mas tu leste o meu diário e saberás que o meu poder não provém de Satanás.

Creio que o meu coração começou a endurecer com a perda do meu primeiro amor, Henry Percy. Poderia ter-me deixado vencer por essa terrível infelicidade, mas, pelo contrário, como os ursos feridos e ensanguentados, acorrentados e atacados por mastins uivantes, senti nascer em mim a fúria necessária para atacar de novo e viver outro dia.

Embora fosse para meu pai uma filha obediente, tivesse amado dois homens e sido traída pelos três, não te vou dizer que todos eles são traidores. Alguns que conheci – teu tio George, Thomas Wyatt, Norris, Weston, Breyerton – foram bons e sinceros para mim. E perdoo a teu pai, Isabel, pois julgo compreender a estranheza do seu carácter. Os homens amam o que não podem obter e odeiam o que não conseguem controlar. Para Henrique fui ambas as coisas.

Assim, filha, embora tenha sofrido e em breve vá morrer, devido a esta necessidade egoísta de governar o meu destino, imploro-te que faças o mesmo. Que nenhum homem te governe. Entrega-te ao amor, aos prazeres da carne, casa-te, se o desejares, mas guarda dos homens uma parte do teu espírito. É assim que colocarei a cabeça no cepo do carrasco, sem me lamentar ou recear a morte. E embora antes de receber os sacramentos, jure pela salvação da minha alma que estou inocente de todos os crimes de que fui acusada, por ti, dobro-me humildemente perante o rei e peço o seu perdão.

Em breve morrerei, porém sinto a alegria de uma parte de mim continuar a viver em ti. Como único legado, deixo-te o meu diário, com a história dos teus antepassados. Quero também que saibas, Isabel, que este coração de mãe está cheio de amor por ti e que quando estiver no Céu olharei por ti, com ternura, durante toda a tua vida. Adeus, minha querida filha, adeus.

Afectuosamente,

Ana

“O Diário de Ana Bolena”.

1 Response so far »

  1. 1

    vitoria said,

    eu achei muito interesante gostei muito de ler


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