Archive for Os portões do Céu não se abrirão para mim

Coração

Eu ouço.

Eu imagino.

As minhas pernas se curvando.

Minhas calças se arrastando na terra.

Ajoelhada lá, com os joelhos ralados e com o coração na boca.

O coração cai no chão perto de mim, duro, e ….

Bate. Bate.

Bate.

Ele se recusa a morrer ou esfriar, sempre voltando pro meu corpo. Só que uma noite, com certeza, ele vai acabar sucumbindo.

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A manhã seguinte

Não me sinto bem. Me pergunto como é a cara dela, o nome. Me pergunto por quanto tempo eles saíram. Bastante, eu acho. Me vejo pálida, toda desgrenhada no espelho.

Bem, seja lá quem você for, estou aqui agora. Você pode ser o passado dele, mas eu sou o futuro.

Sorrio para mim. Meu reflexo me responde com uma careta.

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insociabilidade

É quase inevitável que indivíduos independentes tornem-se insociáveis. Não precisam da sociedade e são muito gratos por isso. Todos os dias percebem como têm sorte por viverem sozinhos, e não em companhia de indivíduos vulgares, de caráter perverso e inteligência obtusa. Quando os demais não vêem em nós qualquer utilidade, quando não conseguem encontrar um modo de nos explorar em seu benefício, nos chamam de insociáveis como se isso fosse um insulto. Na verdade, é o maior elogio que poderíamos esperar receber; ser inútil a indivíduos baixos, vulgares e ignorantes é algo que nos honra profundamente; é quase uma prova de que estamos no caminho certo.

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Meu.

E quero alguém. Alguém que me dê carinho, que me abrace a qualquer momento, que me dê beijinhos fofos na testa e na mão. Uma pessoa que se importe de verdade, que não apenas fique me olhando com cara de preocupado e sim que me faça cócegas só pra me ver sorrir e me fazer esquecer o que estava me deixando triste. Quero levantar de madrugada com o toque do celular e ler uma mensagem de ‘com eu queria que você estivesse aqui’ ou ‘acabei se sonhar com você’. Eu quero alguém para acordar ao meu lado e passar horas conversando até que um dos dois resolva dormir mais um pouquinho. Pode parecer que estou pedindo muito, mas já encontrei alguém assim, só que nunca vou chamá-lo de meu…

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Qualidades

Aquele que finge esquece-se do mais importante, de que o essencial em possuir uma qualidade consiste em desfrutar do benefício de tê-la sempre à disposição como algo que conta em seu favor. Qualidades só constituem fardos àqueles que precisam fingir possuí-las. Quando sabemos possuir uma qualidade, nunca nos ocorre demonstrá-la gratuitamente, e estamos perfeitamente tranquilos quanto a isso. Um juízo contrário não a tirará de nossas mãos nem interferirá em nossas chances de sucesso, não mudará o que pensamos a nosso respeito. Visto que independe de opiniões alheias, geralmente não fazemos sequer questão de saber o que se pensa sobre ela. Então, como não faz sentido defendermos nossas qualidades, é exatamente isso que incrimina os que tentam esconder suas fraquezas com exageros na direção oposta. As qualidades que um indivíduo demonstra desnecessariamente testemunham contra ele próprio, de modo que encontraríamos em seu interior justamente o contrário daquilo que aparenta ser: seu constante esforço em provar seu valor indica que não possui nenhum. Por isso toda ostentação pode ser vista como uma confissão de incompetência. Os que se esforçam em parecer sábios, são tolos; os que lutam para ser humildes, são orgulhosos; os que vivem para demonstrar bravura, são covardes, e assim por diante. Basta acrescentarmos um sinal negativo a todos os valores que ostentam para chegarmos àquilo que realmente são.

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[In] Felicidade

A felicidade de nossas vidas é sustentada por uma ótica constantemente falsa. Sonhamos com o futuro e dizemos: ah!, como serei feliz…; olhamos para trás e suspiramos: ah!, como fui feliz…; agora, lamentamos: ah!, como sou desgraçado… No presente, somos seres infelizes rodeados de felicidades distantes, mas perto das quais o sofrimento atual parece desprezível. O presente é uma ilha de infelicidade rodeada por um mar de alegria. O fato, entretanto, é que nunca mergulharemos nesse mar, pois ele é uma ilusão que inventamos para tentar justificar nossa miséria. Mesmo assim, nunca nos deixaremos desiludir. Somos infelizes absolutamente convictos de que a felicidade existe — esteja ela onde estiver, está à nossa espera, pois sua mão nos foi prometida durante a infância. Não importa que nesse particular nossas vidas resumam-se uma série de decepções: nunca admitimos que tudo é areia, nunca admitimos que fomos enganados. Podemos estar certos de que, se a felicidade fosse uma pessoa, ela estaria presa, mas isso não nos prova nada. A felicidade nos sorri como uma miragem, e nós acreditamos que, dessa vez pode, ser real.

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Solidão

Quando dizemos que não há meios de escapar da solidão, não queremos dizer que isso é difícil, mas que é completamente impossível. O que as demais pessoas conhecem a nosso respeito são apenas nossas bocas movendo-se diante delas, e as ideias que constroem a partir disso; em suas mentes, isso resulta numa visão de nós mesmos tão deturpada quanto a visão que temos delas, que nos parecem existir apenas do lado de fora; e não nos enganemos, nós passamos essa mesma impressão. Contudo, assim como elas, nós existimos primariamente num nível privado que é inacessível, significando que todo e qualquer contato sempre acontecerá de forma indireta. Isso nos permite compreender que não há situação em que seria possível escapar da solidão. Apenas podemos supor que um contato direto seria agradável, mas isso é algo que imaginamos pelos verbos que vemos sair de outras bocas, que se assemelham ao que nós próprios murmuraríamos. Talvez fosse agradável ter um contato direto com a consciência de outra pessoa — e não apenas com seu vocabulário —, mas isso é impossível. Em relação ao íntimo uns dos outros, somos todos estrangeiros vivendo seu exílio pessoal. Cada qual está trancado em si próprio, e só conhecemos o que os demais dizem de si, nunca eles próprios; e nós também nunca seremos conhecidos, apenas ouvidos sobre aquilo que dizemos de nós mesmos. Em suma, a solidão é a consciência de que vivemos sozinhos em nossos corpos, e só podemos entrar em contato com outros indivíduos por meio de gesticulações que nossos corpos executam — exatamente como se cada qual morasse sozinho em uma casa, e só pudesse entrar em contato com outros indivíduos por meio de cartas, sem jamais conhecer o interior de outras residências.

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