Posts tagged lolita

Angústia

Nunca sofri angústia maior. Gostaria de descrever seu rosto, seu jeito… mas não posso, meu desejo por ele é tamanho que me cega quando ele está por perto. Se fecho os olhos, tudo o que vejo é uma fração imobilizado dele, um instantâneo pinçado de um filme cinematográfico. Só consigo descrever seus traços empregando os termos mais banais: poderia dizer que seus cabelos eram castanhos e seus lábios vermelhos…
O espiritual e o físico haviam se fundido em nós com uma perfeição que jamais poderá ser compreendida pelos insípidos jovens de hoje, com seus modos grosseiros e mentes padronizadas. Muito tempo depois que ele se foi, eu ainda sentia seus pensamentos flutuando através dos meus. Muito antes de que nos encontrássemos, havíamos sonhado os mesmos sonhos.

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De repente

De repente, sobre nós bateu uma paixão louca, desajeitada, impudica e agoniante; e também desesperada, caberia acrescentar, porque só teríamos podido saciar aquele furor de posse mútua se cada um de nós assimilasse a última partícula da alma e do corpo do outro. Após uma desvairada tentativa de nos encontrarmos, a única privacidade que nos permitiam era a de estar longe dos ouvidos, mas não dos olhos de todos.

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Amigos

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Observo, com freqüência, que tendemos a atribuir a nossos amigos aquela estabilidade de caráter que as personagens literárias adquirem na mente do leitor. Qualquer que seja a evolução desta ou daquela personagem entre as capas do livro, seu destino está cristalizado em nossas mentes e, da mesma forma, esperamos que nossos amigos sigam esta ou aquela trajetória lógica e convencional que traçamos para eles. Assim, X jamais comporá a música imortal que conflitaria com as sinfonias de segunda classe a que nos habituou. Y jamais cometerá um assassinato. Aconteça o que acontecer, Z nunca nos trairá. Temos tudo bem arranjado em nossas mentes e, quando mais raramente vemos determinada pessoa, maior é o nosso prazer ao verifica, quando ouvimos falar dela, como se vem adaptando obedientemente ao padrão de comportamento que lhe impusemos. Qualquer desvio nos destinos que decretamos nos ofenderia como algo não apenas anômalo, mas imoral.

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Assassinato.

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Aliás, se alguma vez eu cometer um assassinato para valer – prestem atenção no “se” – , o impulso terá de vir de algo bem mais forte do que aquilo que se passou entre mim e ele. Notem também, cuidadosamente, que naquela época eu era bastante inepta. Se e quando vocês decidirem me fritar na cadeira elétrica, lembrem-se de que somente um acesso de loucura poderia fornecer-me a energia necessária para que eu agisse com violência. Às vezes tento matar alguém, em sonhos. Mas sabem o que acontece? Por exemplo, estou empunhando um revólver e mantendo sob minha mira um inimigo impassível, que acompanha com sereno interesse o que está acontecendo. Ah, não hesito em apertar o gatilho, mas, do cano acabrunhado de minha arma, uma bala após a outra cai debilmente ao chão. Nesses sonhos, só penso em ocultar o vexame de meu desafeto, que aos poucos vai ficando entediado com o troço todo.

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