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honestidade

O fato de precisarmos portar um molho de chaves para entrar e sair de nossas residências já revela perfeitamente bem o que pensamos uns dos outros, e deveria reduzir a possibilidade de sermos honestos a uma piada; mas relutamos em admitir algo tão visceral. Claro que nem todos são embusteiros crônicos esperando a primeira oportunidade para nos apunhalar — embora raramente estejam muito longe disso —, mas o fato é que todos mentem porque a honestidade — sempre dizer só a verdade sem levar nossos interesses em consideração — é um erro estratégico crasso, uma ingenuidade intangível inspirada em idealismos insípidos. Ser honesto é uma abordagem que simplesmente não funciona, pois precisamos nos proteger das intenções uns dos outros; nesse sentido, as virtudes que cultivamos na verdade não correspondem ao que nos move; pelo contrário, são em grande parte um modo de desorientar tolos. Viver envolve competir, e competir envolve jogar sujo; disso surge a necessidade de mentir, ao menos para proteger-se; para além disso, ser honesto nunca é mais que uma esmola. Percebamos, então, que as pessoas não são difíceis de entender; o fato é que elas não querem ser entendidas, pois ser entendido envolve revelar segredos, coisa que as deixaria vulneráveis. Assim, no processo de ocultar tais informações sensíveis, nascem inúmeras informações falsas, que são indistinguíveis das verdadeiras, e essa confusão muito intencional de versões é o que torna as pessoas aparentemente incompreensíveis. Disso nasceu o mito de que há algo de esfíngico nas pessoas, quando não há. Entender as pessoas é fácil; difícil é fazê-las dizer a verdade. Na melhor hipótese, gostaríamos de poder ser honestos, mas não podemos — pela mesma razão que não podemos revelar a senha de nossas contas bancárias.

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Sorrir

O problema de achar graça em tudo é que você fica rindo sozinha boa parte do tempo, mesmo enquanto está fazendo coisas que não têm absolutamente nada a ver com o motivo de você estar rindo. Aí as pessoas vêem que você está sorrindo e sorriem de volta, achando que você está sorrindo para elas. Na hora em que você se toca disso, de susto, você fica sério de repente, e elas páram de sorrir. Então você se constrange por ter abortado o sorriso alheio e volta a sorrir, meio amarelo mesmo, só para tentar recuperá-lo. A outra pessoa então se sente confortável novamente e retribui o sorriso. Aí você sai rindo daquela situação estúpida. Encontra uma outra pessoa que, ao vê-lo sorrindo, sorri de volta. E todos comentam, nossa, que pessoa megasimpática, quando na verdade você sofre de um distúrbio de riso compulsivo e de uma imaginação incontrolável.

Fonte: Volumetria

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