Posts tagged temos que falar sobre o kevin

Lados Opostos.

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Não pense que eu acalentava meus segredos. Eles me encurralaram, me pressionaram e, tempos atrás, tudo que eu queria era me abrir com você. Tenho certeza que você não mudou de opinião. Mas você não queria me ouvir. Talvez eu devesse ter me esforçado mais, na época, para obriga-lo a escutar, mas desde o princípio nos pusemos em lados opostos. Para muitos casais em conflito, essa coisa de ocuparem lados opostos é algo sem uma forma definida, o que os separa é uma espécie de divisória, uma abstração – um incidente ou ressentimento difuso, uma luta imaterial pelo poder dotada de vida própria: teias de aranha. Talvez, em momentos de reconciliação, para esses casais a irrealidade da linha que os separa contribua para sua dissolução. Olhe, consigo vê-los dizer, não sem um certo ciúme, não há nada no quarto; podemos nos tocar através do ar fino entre nós. Mas, no nosso caso, o que nos separava era muito tangível e, se não estivesse no quarto, podia entrar quando quisesse, com as próprias pernas.

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Carnificina.

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As carnificinas cinematográficas só são difíceis de engolir se, em algum nível, a pessoa acreditar que as torturas estão sendo infligidas nela. Na verdade, é irônico que esses espetáculos tenham reputação ruim entre os fanáticos pela Bíblia, já que os horripilantes efeitos especiais dependem, para impactar, da compulsão decididamente cristã da platéia de se colocar no lugar de seu semelhante. Mas eu havia descoberto o segredo: não só que não era real, mas também não era eu. Com os anos, vi decapitações, estripações, desmembramentos, empalações, crucificações, escalpos e olhos sendo arrancados e nunca pisquei um olho. Porque eu havia sacado o macete. Se você não se identifica,o horror e a sangüinolência são tão desconcertantes quanto ver sua mãe preparando um estrogonofe. O lado prático da violência é geometria rudimentar, suas leis, as mesmas da gramática. Assim como a definição escolar do que é preposição, a violência é qualquer coisa que um avião pode fazer a uma nuvem.

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Depoimento de um preso.

“Está bem, é o seguinte. Você acorda de manhã, assiste á TV e entra no carro e escuta o rádio. Vai pro seu empreguinho ou pra sua escolhinha, mas não vai ouvir falar daquilo no noticiário das seis, porque, adivinhe: Não há mesmo nada acontecendo. Você lê o jornal, ou então, quando é ligado nesse tipo de coisa, um livro, que dá na mesma que ficar assistindo, só que é ainda mais chato. Você assiste á televisão toda noite, ou então sai pra assistir a um filme, e pode ser que receba um telefonema e possa contar aos seus amigos o que você viu. E, sabe, a coisa tá tão ruim que eu comecei a notar que as pessoas na TV, sabe? Dentro da TV? Metade do tempo, elas estão vendo televisão.  Ou então, quando você vê um romance num filme. Que é que eles fazem, senão ir ao cinema? Todas essas pessoas, o que elas estão vendo?

Gente como eu. Elas querem ver as coisas acontecerem e eu fiz um estudo disso: boa parte da definição de uma coisa que acontece é ela ser ruim. Pelo que vejo, o mundo está dividido entre os que vêem e os que são vistos, e há cada vez mais platéia e cada vez menos o que ver. As pessoas que realmente fazem alguma coisa são uma merda de uma espécie em extinção.

Vocês precisam de nós. O que vocês fariam se nós: filmariam um documentário ou um filme sobre a secagem de tintas? Que é que todos esses caras estão fazendo senão assistir a mim? Não acha que eles já teriam mudado de canal, se eu só tivesse tirado um A em geometria? Sanguessugas! Nós fazemos o trabalho sujo para eles!”

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“Submedo”

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Até o dia 25 de Novembro de 2008, eu me iludia com a idéia de ser uma pessoa excepcional. Mas,desde que você me deixou,estou convencida de que somos todos providos de uma profunda normalidade. Temos expectativas muito definidas sobre nós mesmos em determinadas situações – para além das expectativas, são exigências. Algumas são de pouca importância: se alguém nos fizer uma festa surpresa, ficaremos maravilhados. Outras são consideráveis: se o pai ou a mãe morre, nos sentimos muito mal. Mas, talvez junto com essas expectativas haja o medo secreto de que acabaremos desapontando as convenções, na hora do vamos-ver. Que, ao recebermos aquele telefonema fatal avisando que nossa mãe está morta, não sentiremos nada. Pergunto-me se esse pequeno medo calado, inexprimível, é ainda mais agudo que o medo da má noticia em si: de que vamos nos descobrir uns monstros. Confesso que, durante o tempo que ficamos juntos, sempre tive um grande medo de que,se algo lhe acontecesse, eu desmoronaria. Mas havia sempre uma sombra esquisita por perto, um submedo, se preferir, de que não fosse assim – que eu ficaria em casa feliz da vida jogando Perfect World.
O fato desse submedo nunca levar a melhor é fruto de uma fé grosseira. È preciso acreditar que, se for acontecer o impensável, o desespero desabara por conta própria; que a dor, por exemplo, não é uma experiência que precise ser convocada, nem uma habilidade que requeira pratica.
Por isso, até mesmo uma tragédia pode ser acompanhada por vestígios de alivio. Descobrir que uma amargura é de fato arrasadora nos serve de consolo, reafirma a nossa humanidade (se bem que, tendo em vista o que as pessoas aprontam eis aí uma palavra estranha para pormos ao lado da compaixão, ou até mesmo da competência emocional).

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Então,o que me fez sair de cima do muro? Você,para começo de conversa. Porque se nós éramos felizes,você não, não exatamente, e eu devia saber disso. Havia um vazio na sua vida que eu não podia preencher. Você fazia o próprio horário,a própria paisagem. Lembro-me de uma vez você tentando se expressar,hesitantemente, o que não fazia o seu gênero; tanto no tocante a sentimento quanto a linguagem. Você nunca se sentiu muito confortável com a retórica da emoção, o que é bem diferente de sentir desconforto com a emoção em si. Você temia que demaisiado escrutínio pudesse ferir os sentimentos, mais ou menos como o manuseio,bem intencionado mas brutal, de uma salamandra por mãos desajeitadas e grandalhonas.

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